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REFLEXÃO DE QUARESMA DA AJAN

 Do P. Alexander Wainaina, SJ

Quaresma: Quando a minha oração, jejum e caridade têm efeito sobre o meu próximo

A Quaresma representa para nós um momento especial de crescimento espiritual. É um tempo para refletir na ação de Deus nas nossas vidas e nas nossas atividades quotidianas, em particular onde nos relacionamos com outras pessoas ou exercemos influência sobre elas. É, por conseguinte, um período de atividades intencionais que são deliberadamente desejadas para focar a nossa atenção em determinados objetivos. Durante a Quaresma, a Igreja chama-nos a refletir no amor incondicional de Deus que levou Jesus, o inocente, a querer morrer por nós, que somos pecadores. À medida que nos preparamos para o grande mistério pascal, é-nos dirigido o apelo a assumir de modo intencional e resoluto um estilo de vida de retribuição do amor de Deus, amando Deus e o nosso próximo. Deus fica satisfeito por receber obediência, honra, louvor e glória por meio das nossas palavras e ações, enquanto o nosso próximo beneficia diretamente de todos os atos concretos de generosidade e encorajamento, isto é, das obras corporais de misericórdia.

As cinzas aplicadas nas nossas testas na Quarta-feira de Cinzas assinalam a nossa mágoa pelo pecado e o nosso desejo de arrependimento; contudo, é a vida que levamos no período da Quaresma que representa o verdadeiro foco do apelo de Deus, por meio do projeta Joel, a rasgarmos os nossos corações e não as nossas vestes (Joel 2, 1-3). É um tempo para compensarmos os momentos em que não conseguimos retribuir o amor de Deus, consequentemente um tempo para mostrarmos na prática o amor por Deus e pelo nosso próximo. Quando perguntaram a Jesus quem é “o meu próximo”, Ele imediatamente apontou para uma pessoa na comunidade que necessitava de ajuda e apresentou o Bom Samaritano como um exemplo válido para nós seguirmos. Há pessoas na nossa comunidade que foram feridas de muitas formas, não pelos salteadores na estrada de Jerusalém para Jericó (Lc 10, 30), mas pela pobreza, doença ou outros desafios. Um grupo de entre esses próximos é o das pessoas que vivem com o HIV/SIDA (PVHA). Ao dar início à Quaresma, oiço a voz de Jesus a dizer-me para ser enérgico tal como o Bom Samaritano (Lc 10, 37)? E escuto a voz de Jesus a dizer que a esmola não deve ser um ato publicitado, mas uma ação secreta que só Deus deve ver e recompensar (Mt 6, 4)?

Vivemos num mundo que tem muitos exemplos de generosidade. Acontece muitas vezes serem os medicamentos antirretrovirais (ARVs) dados gratuitamente a quem deles necessita, e muito do apoio material a PVHA é oferecido generosamente tal como a esmola. De modo similar, o apelo da Quaresma para dar esmola é definitivamente para a transformação da vida do povo de Deus. A Quaresma é um tempo para fazer o bem sem publicidade para a glória de Deus. Muitas PVHA são alvo de estigma, ou da possibilidade do estigma, e, por isso, preferem conservar incógnita a sua condição. Tal como Jesus disse aos seus interlocutores para manterem a sua esmola, o seu jejum e a sua oração em privado, o mesmo segredo tem de ser aplicado às boas obras que cada um de nós realiza para aliviar o sofrimento das PVHA. Esta caridade não se deve limitar aos bens materiais; ela certamente inclui visitar uma pessoa em necessidade, dizer palavras delicadas a outras pessoas e acerca de outras pessoas, rezar por outra pessoa, oferecer oportunidades a quem é marginalizado ou desfavorecido, e advogar em favor do bem-estar dos mais débeis.

Conheci muitas PVHA que estão muito gratas às pessoas e organizações que as ajudaram, lhes deram esperança, as referiram à prestação de cuidados, ou mesmo lhes prestaram apoio psicossocial. Algumas tinham sido rejeitadas pelas suas próprias famílias, mas, por ação de diversas associações generosas, encontraram “novas famílias” de pessoas bondosas que as apoiaram. Esses grupos caritativos incluem as pessoas que seguiram a mensagem do profeta Joel para abrirem os seus corações e não as suas vestes, pois são capazes de aceitar “o outro” que parece diferente ou está em necessidade. Que Deus nos conceda a graça de abrirmos prontamente os nossos corações e manifestarmos uma tal notória caridade, enquanto fruto do jejum e da oração que fazemos em segredo durante a Quaresma e mais além.