French
Portuguese

REFLEXÃO DE AJAN LENTEN- Por Pe. Jacquineau Azetsop

Fr. Jacquineau

A época da Quaresma parece ser uma oportunidade de ouro que nos desafia a pensar sobre as formas como enfrentamos a AIDS e como damos respostas à questão dos aumentos de significado.

À medida que a nossa vida se desenrola, o nosso caminho pelo deserto, cada um de nós toma decisões acerca do modo de orientar a própria vida. Poderemos vir a desejar deixar de lado o conforto exterior para buscar as recompensas interiores, uma vez que a procura de recompensas exteriores não nos ajudará a enfrentar a inevitável questão do sentido. O significado da existência é conatural à existência humana. A busca do sentido torna-se ainda mais premente quando as capacidades humanas foram postas em crise pelos desastres naturais ou por uma doença como a SIDA, o cancro ou outra. No caso da SIDA, um ínfimo vírus intracelular torna a procura do significado urgente e questiona a solidariedade dos países africanos para com as pessoas afetadas e infetadas.

O tempo da Quaresma parece constituir uma oportunidade de ouro que nos desafia a pensar nas formas como enfrentamos a SIDA e em como damos resposta à questão do sentido que ela levanta. No início do tempo da Quaresma, Jesus disse-nos que as nossas práticas espirituais devem ser realizadas em segredo, que elas não devem chamar a atenção para nós próprios. Se rezarmos para darmos nas vistas e as pessoas pensarem bem de nós, se jejuarmos ou dermos esmola para que os outros nos tenham em boa conta, então a nossa autêntica motivação é a superioridade, o estatuto social. Nesse caso, a nossa piedade é hipócrita, uma encenação. Jesus recomenda uma disposição espiritual fundamental, que não é uma exibição, mas tem a ver com crescimento interior. Este é, pois, o caminho a seguir. O homem interior tem de ser alimentado e nutrido. A espiritualidade autêntica, que fortalece a nossa relação com Deus, acontece em segredo, fora dos olhares alheios. O benefício tem a ver com a nossa transformação interior, não com a forma como os outros nos consideram ou tratam. Mesmo quando uma pessoa que vive com o HIV é discriminada, ela pode retirar da força interior que adquiriu no segredo aquilo de que necessita para seguir em frente. O mesmo apelo a buscar o nosso crescimento interior encontra eco no profeta Joel: “rasgai o vosso coração e não os vossos vestidos”. À medida que seguimos os passos de Jesus no deserto somos, pois, chamados a alcançar a transformação interior. É com uma tal estrutura interior no nosso ser que poderemos enfrentar desafios de monta, como a infeção pelo HIV, nas nossas vidas. Essa mesma disposição pode incitar expressões de caridade e amor em favor das pessoas que vivem com o HIV ou são por ele afetadas.

Para edificar o nosso ser interior neste tempo da Quaresma ao seguir Jesus no deserto, Jesus prescreve três práticas espirituais: oração, jejum e esmola. Estas práticas visam promover a nossa transformação interior, a mudança do nosso coração e da nossa mente.

A primeira prática espiritual é a oração. Há tantas formas diferentes de rezar quanto o número de pessoas. Rezar é, antes de mais, ter um tempo de qualidade com Deus, um tempo em que é dado a Deus o lugar certo. Sendo o princípio e fundamento das nossas vidas, os critérios para a nossa existência são modelados por esta relação. Por isso, o silêncio que envolve o nosso encontro face a face com Deus é fundamental, enquanto a forma como pomos em prática aquilo em que acreditamos é um indício; um indício de uma verdade mais profunda que determina quem somos e aquilo em que nos devemos tornar.

O silêncio de que Jesus fala é decisivo, pois é marcado pelo peso do poder todo-poderoso de Deus e do seu amor infinito. O que importa não é como rezamos, mas antes como nos abrimos à graça de Deus na oração. Não nos devemos julgar a nós próprios. Não nos deve preocupar se estamos a rezar bem ou a perder o nosso tempo. A oração não transformará o nosso coração e a nossa mente de um momento para o outro, mas gradualmente terá lugar uma verdadeira transformação, ajudando a que nos sintamos mais próximos de Deus e da sua criação. A oração pede a transformação de nós mesmos e a transformação social, porque acolher a graça de Deus exige ao mesmo tempo algum esforço sobre nós mesmos e ações que visem transformar a sociedade. Assim sendo, a oração prepara o terreno para o jejum e a esmola.

O jejum é a segunda prática espiritual. Jejuar quer habitualmente dizer reduzir a quantidade de comida que ingerimos. Pode acrescentar-se reduzir a conceção de políticas que sirvam os interesses dos mais abastados ou reduzir o alimentar de ideias negativas acerca de si mesmo ou de outros. O valor de sentir alguma fome ou de se negar a si mesmo não é simplesmente o de sentir incómodo e aborrecimento. Pelo contrário, o incómodo pode tornar-nos mais gratos pelo muito que temos, pela abundância de bênçãos que são derramadas sobre as nossas vidas, ou mais centrados em viver melhor sublinhando o que é mais positivo na nossa atual situação. Sentir alguma fome pode ajudar-nos a experimentar empatia, a estabelecer uma ligação com quem não tem o suficiente para se alimentar ou com quem sente uma dor e um incómodo permanentes. Partilhar um pouco da experiência de outros seres humanos pode ajudar-nos a sermos mais compassivos.

O jejum pode também ser entendido como uma forma de se afastar do que é negativo, abandonando os pensamentos negativos e abraçando novas perspetivas. Esta forma de entender o jejum é, sem dúvida, muito importante para quem está infetado ou afetado pelo HIV. Por isso, em si mesmo, o jejum, tal como qualquer outro ato de negação de si mesmo, não é uma garantia do fortalecimento da nossa relação com Deus. A negação de si mesmo pode significar que estejamos a procurar demonstrar como somos fortes, ou santos, pode apontar para o orgulho. A negação de si mesmo tem o valor espiritual de nos ajudar a sermos gratos e compreensivos. A negação de nós mesmos pode motivar-nos a viver de modo diverso, a buscar a justiça social e a identificar-nos com quem é necessitado. Desta forma, o jejum pode ser associado tanto a um valor simbólico e mental como a uma valência de justiça social. Este último significado do jejum desafia os políticos cristãos a deixarem de lado a ganância e o egocentrismo para cuidarem verdadeiramente dos mais necessitados e de quem sofre por causa da SIDA. Podemos então colocar importantes questões: quais são os objetivos e os primeiros beneficiários das políticas sociais? A luta contra a SIDA é ainda uma prioridade de desenvolvimento? Como é que os países africanos tratam as pessoas que vivem com o HIV? O jejum é praticado por governantes desligados das problemáticas das injustiças sociais ou dos desafios enfrentados pelas pessoas que vivem com o HIV?

A terceira prática espiritual é a esmola, também conhecida como práticas de misericórdia ou caridade. Jesus disse que a nossa mão esquerda não saiba o que faz a direita. Por outras palavras, quando ajudamos alguém, não chamemos a atenção para nós mesmos. Mantenhamos uma atitude discreta. Trabalhemos nos bastidores. Esta é a forma de agir de Deus.

Servir e cuidar de outros ajuda-nos a perceber e a identificar-nos com outras pessoas. Também nos implica no dar e no receber. Descobrimos que, quando servimos, muitas vezes não estamos apenas a dar, mas a receber. Há mutualidade, reciprocidade, que nos dignifica, torna-nos mais semelhantes a Deus e une-nos mais aos outros, fazendo-nos sentir que partilhamos o mesmo.

Vivemos, porém, num mundo em que se nega a muitos o direito a existir. Luc Boltanski fala da impercetibilidade do outro que parece ser uma característica da nossa aldeia global, em que a criação de novas alteridades se baseia na influência económica ou na distância geográfica. Num tal contexto, a caridade pode ser muito seletiva ou, até mesmo, um meio para mais opressão. A esmola pode ser entendida num sentido horizontal como o facto de se dar ao próximo, mas pode atribuir-se-lhe um significado mais vasto, o de se criar um ambiente social e global em que cada indivíduo possa levar uma vida digna.

Enquanto práticas elementares da espiritualidade cristã, a oração, o jejum e a esmola não visam apenas tornar-nos individualmente santos, mas também criar um espaço para a santidade coletiva. Por conseguinte, podemos de modo legítimo e acertado falar de uma espiritualidade social, porque a nossa caminhada espiritual com o Filho de Deus repleto do Espírito no deserto alargará o nosso horizonte e abrir-nos-á às necessidades daqueles de nós que devem beneficiar da solidariedade social.

A Quaresma é uma oportunidade para reorientar as nossas vidas para o que de facto tem sentido. É um tempo para reconhecer os nossos pecados e falhas individuais e sociais, não para nossa vergonha e para nos alimentar um sentimento de culpa, mas para nos ajudar a ir para além da vergonha e da culpa, para que nos aceitemos a nós mesmos e sintamos como Deus nos aceita, para nos ajudar a sentir que pertencemos a Deus, próximos de Deus.

Por Pe. Jacquineau Azetsop, decano da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Gregoriana, Roma, Itália